O nosso iPad

Todos os dias se escreve sobre o iPad. Escreve-se sobre o seu carácter revolucionário, sobre as suas aplicações, escreve-se sobre o seu sucessor, diz-se maravilhas, compara-se com concorrentes que surgem como cogumelos.

Sempre disse que iria esperar pela versão II deste dispositivo a que chamam de tablet, gadget, computador portátil, etc. Embora seja um aficcionado confesso da Apple, nunca fui de correr à loja sempre que sai um produto novo desta ou de qualquer outra marca. Sou daqueles utilizadores de tecnologia que tem de ver e sentir uma utilidade no produto antes de adquirir. Fiz isso antes de comprar o meu primeiro telemóvel e faço isso antes de comprar qualquer computador. Com o iPad não seria diferente, não fosse o caso de me oferecerem um. Fui experimentando a sua utilidade na minha área de actuação, tal como experimentei outros equipamentos de outras marcas.

Sou professor no Ensino Superior, mas, antes de o ser, sou Terapeuta Ocupacional especialista em neurodesenvolvimento, integração sensorial e tecnologias de apoio. É nesta qualidade, de professor de Terapia Ocupacional que faço a minha primeira análise deste iNovador produto, após algumas semanas de utilização.

Em primeiro lugar, sempre me perguntei se valeria a pena ter um iPad, tendo já um iPhone, um MacBook e um iMac. A resposta é sim, categoricamente. Mas se sim, qual o seu papel? Sem perder tempo com as questões de telefone, logo à partida, a portabilidade. Ter acesso a documentos de pesquisa e a exemplos de soluções à distância de uma pequena sequência de toques num display com uns quadradinhos alinhados, seja num gabinete de trabalho, seja durante uma sessão de avaliação ou a caminho do almoço, permite resolver situações que antes teriam um “depois vejo isso” como resposta mais provável. O depois estaria necessariamente dependente da altura em que estivesse em frente ao computador e aguardaria a sua vez na lista dos to do.

Para fazer apresentações de diapositivos, nas minhas aulas e conferências, utilizo o Keynote, como não poderia deixar de ser. Nesta actividade ainda tenho duvidas sobre as vantagens do iPad relativamente ao meu velhinho MacBook. Se a aula em questão não exigir o recurso a muitos media, o iPad tem a grande vantagem de não exigir esforço nenhum para colocar a apresentação a correr e deixar-nos plenamente concentrados nos conteúdos a leccionar. Sempre fui de opinião que o diapositivo é apenas um suporte visual ao objectivo da aula. A simplicidade do programa Keynote permite isso e muito mais. Essa simplicidade foi muito bem transferida para a forma com o iPad se interliga com um projector. Como é comum num equipamento Apple, ao ligar ao projector, não é necessário fazer nenhma sequência de combinações de teclas ou toques. Liga-se, espera-se poucos segundos e lá brilha a apresentação na tela. No entanto, se a aula exige o recurso a outros meios audiovisuais noutros suportes, então o portátil tem de entrar em acção e não vale a pena levar os dois aparelhos para a sala de aula. Resta acrescentar que para fazer a projecção, torna-se necessário adquirir um adaptador VGA, mas para o MacBook também.

No entanto, para mim, é para as actividades de avaliação e intervenção directa ou indirecta (consultadoria) que faço com crianças que tem necessidades especiais, que o iPad se destingue como uma iNovidade. São varias já, as aplicações na AppStore para o desenvolvimento de diferentes tipos de soluções para a Comunicação Aumentativa e Alternativa. Umas permitem a digitalização de voz outras recorrem à tecnologia text-to-speech. Umas são muito simples de configurar, outras exigem um bom planeamento do sistema de forma a criar uma estrutura hierárquica ou temática. Umas são muito acessíveis, outras algo caras. Mas a possibilidade de personalizar uma solução para que uma criança com deficiência possa, através de uma sequência simples de toques sobre um conjunto organizado de símbolos e com isso, em qualquer lado, poder comunicar e interagir, é igual em todas essas opções com diferentes níveis de potencialidades. Pessoalmente, já configurei ou ajudei a configurar sete iPads para crianças com deficiência, desde bebés com paralisia cerebral até crianças em idade escolar com autismo. Em todas, a opção de compra foi dos pais. Apenas fui consultado para os ajudar na construção das soluções. Isto significa que esta tecnologia inverteu também o tradicional processo. Eram os profissionais que decidiam, com mais ou menos envolvimento dos pais e da criança, que tecnologia seria a mais adequada. Neste momento tenho os pais a decidirem que querem ver os filhos a utilizarem um iPad para brincar e comunicar. Por já estar a contactar com o estrebuchar reactivo de alguns colegas, entendo isto como um verdadeiro teste à transdisciplinaridade tão apregoada.

As questões de acessibilidade ainda têm de evoluir muito. Actualmente todas as aplicações disponíveis apenas permitem um acesso directo. Falta desenvolver soluções de acesso indirecto, via interfaces de controlo (o que implica Mexer em hardware). Esta incapacidade impede, por exemplo, crianças com deficiência neuromotora grave de ter um acesso eficaz às opções de comunicação disponibilizadas ou a outras actividades lúdicas e/ou de literacia.

Mas não é só para a comunicação que o iPad veio iNovar. Numa era em que o pequeno écran de videojogos se implanta como meio preferencial no brincar das crianças, o iPad é um ambiente aliciante para actividades de jogo, em qualquer fase do desenvolvimento da criança e também como forma alternativa. Com o iPhone já tinha realizado algumas experiências nesse sentido. São também inúmeras as aplicações para o brincar de causa-efeito, para o jogo de associação, dissociação e de sequenciação e aqueles que exigem competências cognitivas como a memória e a atenção, para a leitura e escrita e para o desenvolvimento de actividades criativas, como o desenho. No iPad, estas actividades assumem uma dimensão de tal forma apelativa e interactiva que torna a motivação um factor preponderante para um envolvimento activo da criança na actividade. Este aspecto assume um papel ainda mais relevante para a criança com deficiência, onde a passividade aprendida muitas vezes se sobrepõe à própria incapacidade.

Por tudo isto, o iPad que recebi é uma tremenda ferramenta de trabalho. Não deixará de ser um meio de acesso à informação e de entretenimento, como se tem apregoado e afirmado, mas é na área da (re)habilitação que tentarei desenvover a sua utilidade. Voltarei aqui para dar contas desta minha primeira percepção.

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