O risco de vender telemóveis
O empregado aproxima-se do cliente que experimentava um telemóvel de ultima geração no mostruário. Ele parecia muito interessado. Oportunidade de venda evidente. - Posso ajudar? - Sim, por favor. Este telemóvel também faz chamadas? - pergunta o cliente com ar irónico e um sorriso entendedor. - Oh, claro. Se quiser posso lhe mostrar como funciona com um cartão SIM. Venha aqui ao balcão, por favor. O empregado dirige-se a um armário atrás do balcão e retira uma embalagem de um daqueles telemóveis. Só fica mais uma daquelas caixas na prateleira, repara o cliente. Com um à vontade que demonstra conhecimento profundo da forma como aquele equipamento vem condicionado na embalagem, saquinho após saquinho, atilho após atilho, chega ao momento em que se torna necessário abrir a tampa da bateria. Nesta altura o cliente repara que uma unha do 3º dedo da mão direita do bem parecido, mas descuidado rapaz, risca ligeiramente a tampa. - Olhe! Ficou um pouco riscado. - Não faz mal! Apressa-se o solícito empregado a comentar, não olhando para o cliente. - passa-se aqui um paninho com este produto e o risco desaparece. Após a experimentação de algumas das potencialidades do equipamento, incluindo a forma como se poderia aceder à internet, enviar emails e gerir uma biblioteca de imagens adquiridas através de uma câmara de imensos Mb de pixeis, o cliente já tinha decidido que era aquele telemóvel que iria oferecer à sua amada companheira. Que rica prenda de aniversário ela iria receber, pensava ele, enquanto o empregado voltava a empacotar todos os equipamentos e debitava conselhos sobre a forma de potencializar a carga de bateria. - Se não se importa, levo outro exemplar, já que esse tem um risco. - Este é o último. Mas eu já o poli e não se nota nada, quer ver? - Mas eu vi que tinha ali outra caixa… - Ah! Aquele está reservado. Mas estamos à espera de mais, na próxima semana. Hoje é terça feira. Para a semana é demasiado tarde. Tinha de ter um daqueles telemóveis até quinta feira. - Ora mostre lá a tampa, por favor. O colaborador, a ver a venda a andar para trás e com um fácies a roçar a aflição, abre outra vez a caixa. Tinha de vender aquele equipamento para cumprir a meta de vendas definida para aquele mês. - Está a ver? Não tem risco nenhum. - Tem, tem! Está a ver ali? - Eu passo mais um pouco deste líquido e isso desaparece. - Veja lá isso! Após algumas esfregadelas, com uma criança a olhar curiosa enquanto a mãe pedia informações sobre como devolver um equipamento avariado, o empregado devolveu o telemóvel ao cliente com o seguinte comentário, pouco convencido e virando o aparelho de forma a ficar com sombra sobre o lado riscado: - Está como novo! - Mas isto não é suposto ser novo? - Bem!… É uma forma de dizer. A criança pergunta, intrometida: - Isso tem jogos? - Claro que tem. E podes descarregar mais da net - responde o empregado, tentando aproveitar para desviar a atenção do insucesso das esfregadelas. - Nota-se pouco que tem um risco. Acho que… A esta altura, o empregado acordava do arrependimento de não ter cortado as unhas no sábado passado, por ter acordado tarde. Para conseguir apanhar o autocarro para o shopping, tinha decidido não tomar banho de manhã. Consequentemente, também não cortou as unhas como fazia todos os sábados. Agora, via o cliente inclinar-se para a compra. Bom sinal, aquele de colocar uma mão no bolso interior do casaco. Mas ainda não. Ele estava a tirar os óculos. Isto assim não ia lá. Para conseguir atingir as difíceis metas de vendas mensais, ainda tinha de vender uns 10 telemóveis daqueles que só fazem chamadas ou 5 dos com mp3. E só faltava uma semana para o mês terminar. - Olhe aqui. Está a ver? Isto com o tempo vai se notar. Não haverá outro igual a este, noutra loja? - Muito bem. Vou ver. Virou-se para o terminal de computador e começou a digitar rapidamente, demonstrando o seu domínio sobre o sistema arcaico de comunicação entre lojas e do programa de gestão de stocks. Após alguns minutos, durante os quais, o seu indicador deslizou para cima e para baixo no écran do terminal, tanto à esquerda como à direita, virou-se para o telefone. Pressionou paulatinamente a sequência de números consultados num bloco de notas e aguardou. O cliente, entretanto, tinha-se virado para uma montra e perguntava a outra colaboradora - Não têm iLindos? Quando a colega, que estava muito à sua frente na disputa pelo lugar de empregado do mês, ia começar a responder, responderam do outro lado da linha. - Têm aí o F71? Aqui no sistema não dá nenhum em stock… - … - Sim. Da Zókia… - … - Ok! Podem enviar um para aqui? - … - Amanhã de manhã?… Não pode ser à tarde? De manhã não estou de serviço e assim perco a venda. Sabes como é! Se pedir para o registarem nas minhas vendas, fazem-me o manguito. - … - Ok! Obrigado. Virou-se para o cliente. - Parece que estamos com sorte - disse de sorriso treinado nas formações de duas horas semestrais. Amanhã à tarde temos aqui outro F71. - Muito bem! Amanhã, pelas 19 horas passarei por aqui. - Em que nome fica a reserva? O resto da tarde passou-se sem mais vendas. Pelo menos, dignas de modificarem significativamente qualquer score. Vendeu um par de headphones da marca da casa e conseguiu vender uma bolsa tipo peúga para um miúdo com a cara infestada de acne. Também apareceu a mãe daquela criança curiosa, a reclamar que o telemóvel que tinha comprado na semana passada, numa outra loja, estava sem luz nas teclas. Pelos vistos, a colega da outra loja não a tinha convencido a ir reclamar com a marca, por curiosidade a mesma e do mesmíssimo modelo da venda suspensa da tarde. As instruções recebidas da administração eram muito claras: evitar trocas e devoluções. Encaminhar os clientes para as marcas, em qualquer caso de reclamação. Aquele telemóvel riscado ia ser difícil de explicar e muito mais difícil de vender. Até porque custava mais que o seu parco ordenado, não fosse lhe estarem a cortar as compensações dos turnos nocturnos. A senhora, de forma educada mas já com níveis de impaciência na zona laranja, disse-lhe que tinha estado noutra loja e que lhe tinham dito que havia ali um telemóvel igual para proceder à troca. Perguntou-lhe também se via algum risco no écran. Não via risco nenhum. Mas via uma oportunidade para reparar o risco da tarde. - Deixe-me ver ali à luz. Virou-se e fingiu estar a observar o aparelho de vários ângulos.
Tanto se virou que chegou perto do malfadado aparelho riscado com uma das suas unhas. Pousou o da senhora. Perguntou-lhe, com tom desconfiado, em que lado do écran lhe tinham dito que estava riscado. - Ali no canto superior direito - apontou ela. - Não me parece que esteja riscado aqui. Mas a tampa da bateria tem um risco. Quer ver?
Escrito como exercício num iPad. JF